MUNDO DE CETIM |
Quinta-feira, Novembro 27, 2008
A flor respondeu: - Bobo! Acha que abro minhas pétalas para que vejam ? Não faço isso para os outros, é para mim mesma, porque gosto. Minha alegria consiste em ser e desabrochar. [A Cura de Schopenhauer - Irvin D Yalom] comentário: Quarta-feira, Novembro 26, 2008
peculiarismos da nossa espécie Enquanto caminhava, revivia a chegada de cada um deles, pensava na força que exercem sobre mim e nos momentos mais difíceis nos quais olhei ao redor e lá estavam Eles secretamente disponíveis. São cinco, mas parecem uma centena quando preciso de muito e um só quando preciso de pouco. Chegam a parecer nenhum quando eu preciso de solidão absoluta. Chegaram miúdos, trazendo momentos inesquecíveis e uma alegria despretensiosa. Orelhas enormes, miado de criança e os olhinhos mais assustados que eu já vi na vida. Um amor tão grande, tão bom, puro e verdadeiro que eu nem sabia que existia. Com eles aprendi sobre atenção, alongamento muscular e a funcionalidade da preguiça e do gostar desmedido que fica nas entrelinhas das relações do dia a dia. Esse gostar que é inversamente proporcional à quantidade de palavras faladas, porém do tamanho exato dos carinhos dispensados sem ponderar nem esperar pelas verdades escondidas. O tempo passou rápido ao lado deles. Quase suave. Foi a melhor relação que eu tive na vida no estilo eu-tu de Buber*. Engraçado isso acontecer com eles. Talvez tenha sido assim justamente por ser eles e não por ser eu. Pensei em como escolhas são excludentes e fui dividir essas delicadezas com o gato que veio me receber feliz na soleira da porta de entrada, selando aquela amizade genuína com um beijo entre as orelhas. *filósofo judeu austríaco cuja obra trata do verdadeiro encontro entre dois seres, o relacionamento eu-tu total e afetuoso em oposição ao encontro eu-isso que não valoriza o outro. consiste numa relação completa reciproca e, por definiçao, não pode ser unilateral. comentário: Terça-feira, Novembro 25, 2008
inventário do desassossego* Eu bagunço quase tudo por onde ando, mas adoro estar em um lugar perfeitamente em ordem. Caetano em dias sim, Nina Simone em dias não, Vinícius para ouvir só, Nana de noite, Cartola aos domingos, Chico sempre. Barulho me deixa exausta. Me olho todos os dias antes do banho cuidadosa e benevolentemente no espelho. Quase nada me tira a fome. Indecisão me tira o sono. Flores sempre, girassóis principalmente. Eu sonho antes de dormir. Quando não sei o que comer, para onde ir ou o que fazer, é batata!: estou triste. Acho que amigos são das melhores coisas na vida. Não vejo problema em dormir com maquiagem. Escolho muita coisa pelo cheiro. As pessoas pelo olhar. As roupas pela cor. Alguns livros escolho pela capa. Gosto de andar com os pés descalços. Há sempre uma solidão que me ampara e outra que me atormenta e é isso que me torna um ser minimamente sociável, ainda que não pareça. Toca música na minha cabeça o tempo todo. Quando me abraçam, eu fico sem jeito. Aprendi a dizer alguns nãos. Detesto que riam de mim quando estou nervosa. Meu raciocínio é lento mas eu penso muito rápido e essas minhas incoerências me deixam tonta. Acredito que amor e admiração andam juntinhos. Eu sinto cada vez menos dor, mas sofro cada vez mais, normalmente por coisas que ninguém desconfia. Quando ela sorri é como se acontecesse uma festa boa e eu danço por dentro. Meu maior medo é de deixar de sentir. Acho que as palavras têm força e podem mudar o curso das coisas. Quando eu digo que gosto de alguém, gosto mesmo, quando não gosto, só eu sei. * idéia de Tícia. comentário:
Ela
Um vestido bonito por cima da calça e o belo sorriso de sempre. Assim ela nos recebeu na sala verde sem poupar o passar de mãos pelos cabelos estilo Europeu. Foi no jeito de me presentear com um tubo de creme dental que deixou claro a vontade de limitar, a olhos menos atentos, a nossa quase intimidade. Quando saímos para a rua, aquele frio, aquele vento chuva talvez, ela escolheu pizza e me olhou tão doce e demoradamente, e foi um gesto, um gesto simples, que não se planeja, não se calcula, que justificou a noite. Depois ela voltou para casa com meu coração no bolso da jaqueta. comentário: Quinta-feira, Setembro 25, 2008
não e não Nunca mais Nem morta Não quero Não posso Não devo Hum... Então tá. ____________________________ Cristais Baccarat, não. Baixelas de prata, não. O último grito da moda, não. Iates, não. Ações da bolsa, não. Pedras preciosas, não. Hotel 5 estrelas, não. Relógios Rolex, não. Porcelana Legle, não. Fracalanza, não. Cartier, não. Caviar Beluga, não. Investimentos, não. Grifes, não. Primeira classe, não. Só me interessam as coisas que são tão caras que o dinheiro não pode comprar. comentário: Quarta-feira, Agosto 27, 2008
A tristeza veio andando em minha direção. Grande, forte, olhos esbugalhados, tosse alta e encatarrada. Balbuciou algo apenas com o movimento dos lábios e só saiu um fio de voz fina. Não entendi. Seu corpo robusto era coberto de farrapos e os cabelos brancos e desalinhados. Com uma das mãos - unhas sujas e repugnantes - apertou meu ombro, cerrou os lábios e como num pré grito soprou de leve o meu rosto. Tinha um hálito quente. Passou a mão por entre os meus cabelos e num acesso de riso frouxo me abraçou com seus vários braços dizendo baixo no meu ouvido: não brinque comigo! comentário: |